Dois
meses antes...
José
acordou mais uma vez em menos de uma hora, por um momento sem lembrar onde
exatamente estava. Rapidamente lembrou quando viu as paredes pichadas e a luz
do sol que iluminava fracamente por meio de rachaduras, indicando o Sol estar
se pondo no ocidente. As costas doíam por estar deitado naquele cubículo com
mais dois homens que achavam que eram o dono do lugar. Os primeiros meses foram
os mais difíceis. Quando os carcereiros descobriram o motivo de José estar ali,
espancaram-no várias vezes.
Era
sábado. Dia dos pais. Mais um que ele iria passar sem receber a visita de seu
filho. A cada ano que passava sem receber sua visita, mais seu ódio aumentava
por Helena ser tão injusta e afastar o garoto dele tão radicalmente. Sem falar
que a vontade de beber aumentava cada vez que José saia para comer no
refeitório. Enquanto as auxiliares de cozinha serviam seu suco, o barulho do líquido
caindo no copo o atormentava, fazendo-o lembrar-se das noitadas sentado na mesa
de bar, acompanhado de sua cerveja, doses de uísque e o ritual que todos ali
conheciam. “Garçom...”, e eles já traziam sua próxima rodada. Foram várias
noites assim desde que descobriu na adolescência sua compulsão por álcool, que
antes era só uma diversão entre os amigos que alegavam que ele precisava ser
mais descolado. Foi quando em mais um dia de ressaca, arrumando desastradamente
seus óculos, avistou a menina mais linda que acabara de esbarrar na pracinha da
cidade local. E esta era Helena, a qual escolheu construir sua família e
dividir suas mágoas do passado, fazendo-a sofrer cada vez que o efeito do
álcool estava sobre seu domínio.
E
durante a visitação do dia dos pais, uma rebelião aconteceu. E em meio à confusão, José fugiu.
Dias
atuais...
− Preciso de um grande favor. – Pediu Helena
para a pessoa do outro lado da linha, sem esperar sua resposta. – Não vou mais fugir. Chega disso. Estava
muito bom enquanto José estava preso...
−
Mas quem diabos é José, Helena? Estou preocupado, você nunca me disse nada
sobre seu passado.
Passaram-se
alguns segundos em silêncio, pensava se deveria falar sobre isso. Nunca havia
falado disso com ele, apenas esquivava quando o assunto era seu passado.
−
Escute-me! Só preciso de sua ajuda. Estou indo aí com meu filho. Conto para
você pessoalmente. Até breve, saio daqui a duas horas.
Faltavam
apenas alguns minutos para Helena sair no horário combinado. Ela estava
apreensiva e o nervosismo tomava conta de seu corpo. As mãos estavam geladas,
combinando com o clima que estava do lado de fora de sua casa. O vento soprava
por debaixo da porta, fazendo a mesma forçar como se por um impulso fosse
quebrar. Quando um barulho seco e grave pode-se ouvir de fora. “O que foi
isso?”, pensou ela. Parecia não ter atingido nada, apenas estava próximo
demais.
Era
um disparo.
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