Helena, uma moça negra, de cabelos castanhos, volumosos e encaracolados, estava no canto da sala ainda horrorizada com o que havia acontecido, seus
olhos doíam e sua boca sangrava. Ela havia sido espancada pelo marido mais uma
vez. José era um homem alto e forte, tinha cabelos e olhos castanhos e era alcoólatra. O cheiro do álcool era presente em cada xingamento desferido contra o rosto da moça, e junto dele, mais hematomas para esconder com a maquiagem.
Mal sarava um ferimento, e outro já se abria em algum lugar de seu corpo. Os tons roxos e até mesmo verdes em sua pele deixavam claro o abuso que Helena sofria há dez anos. O amor que existia no início do casamento já não existia mais. O único motivo pelo qual ela ainda insistia naquele casamento, era o medo de não conseguir criar seu filho sozinha, mesmo sabendo que a solução de seus problemas era a separação. Separação não somente de um homem ou de um matrimônio, mas sim de uma vida de sofrimentos, tapas e ofensas, noites em claro e lágrimas frias.
Ao fundo da cena, um choro ainda mais alto persistia. Era o choro de Pedro, o filho do casal. A criança também estava assustada, carregava junto de si uma bagagem cheia de discussões dos pais, choros da mão e tapas do pai. Ao perceber o choro do menino, Helena se levantou do chão e foii acalmá-lo, segurando-o no colo. Sempre que estava no colo da mãe, o garoto gostava de puxar os cachos de seu cabelo, que estavam sempre presos em um lenço. Pouco tempo depois, Pedro já estava dormindo e foi colocado em sua cama como se estivesse tudo bem.
A moça então decidiu lavar o rosto, secar as lágrimas e tratar dos ferimentos, pois precisava arrumar a bagunça que seu marido havia feito na casa. Cerca de uma hora depois, a moça acabou dormindo no sofá.
Batidas fortes na porta e um raio de luz que atravessava a cortina acordaram Helena logo pela manhã. “Não pode ser visita, o porteiro nem interfonou”, pensou a moça. Ao abrir a porta, um policial segurando uma prancheta disse:
- Bom dia, é aqui a residência do Senhor José Ferreira?
- Sim, o que o senhor gostaria? – respondeu Helena.
- Recebemos uma denúncia anônima, o denunciante escutou gritos, barulho de coisas quebrando e choros vindo desse apartamento –contou o policial tentando olhar por cima do ombro de Helena – Será que posso verificar o lugar?
- Ah claro - assentiu a mulher com um nervosismo repentino.
O homem andou pelos cômodos da casa vasculhando tudo, verificando a bagunça que ainda continuava ali e depois foi para perto de Helena.
- A senhora tem muito para contar, pegue o garoto e me acompanhe, por favor – disse o policial enquanto caminhava em direção a porta da saída.
Pedro mal podia esperar para acompanhar o policial, enquanto Helena mal podia acreditar no que estava prestes a acontecer. As perguntas que, cuidadosamente, teria que responder com detalhes e as pequenas mentiras que teria de inventar para esconder os fatos mais absurdos que aconteciam em sua casa e, além de tudo, contra seu próprio corpo. O frio na barriga a acompanhando a cada segundo, as mãos tremiam mesmo que passando despercebida, e seu coração parecia pular a cada quilometro.
Assim que cruzou as portas do local, a mulher se deu conta do que iria fazer. Todos os dez anos de casados desmoronando em questão de minutos. Toda a dor vindo à tona, todo o disfarce se desfazendo aos poucos tal como seu casamento.
Sentou-se de frente para o delegado, o filho no colo observando tudo ao seu redor. Para uma criança de cinco anos, estar em uma delegacia parecia cena dos filmes de ação que passam na televisão, mas tudo aquilo pelo qual estavam passando era a realidade. As perguntas vieram, e a cada resposta o coração de Helena palpitava ainda mais.
- Há quanto tempos vocês são casados? –questionou o delegado.
- Há dez anos.
- E na época se casaram por amor ou porque a senhora foi obrigada?
- Eu realmente amava meu marido, no início ele dizia que me amava também. Eu tinha apenas 17 anos e acreditava sempre que ele dizia que gostava dos cachos e do volume do meu cabelo, do tom negro da minha pele e da suavidade que existia quando eu falava. –disse Helena com lágrimas nos olhos.
- E os hematomas em seu rosto? A senhora poderia me explicar?
- Eles estão por todas as partes, pouco tempo depois que me casei, meu marido começou a beber todos os dias. Ele sai do trabalho e vai para o bar, volta pra casa quando já está tarde, e é quando ele me bate. Muitas vezes ele me bateu por motivos bobos, às vezes nem tinha motivo. -explicou Helena, que chorava sem parar.
- E a senhora nunca pensou em divórcio e nem nada do tipo? -perguntou o delegado.
- Nunca pude, ele nunca me deixou trabalhar fora. Se eu saísse de casa, ficaria sem nada e ainda estaria com meu filho para cuidar, sem ter para onde ir ficaríamos na rua. E também que o José me ameaçou várias vezes, dizendo que se eu fosse embora de casa ele iria me matar. -relatou a pobre moça.
- Olha, diante disso tudo a senhora tem duas opções: denunciar seu marido ou continuar sofrendo nas mãos dele. Acredito que a primeira opção seja a mais adequada. -concluiu o delegado.
-O que eu preciso fazer para denunciar?
-Tudo o que a senhora contou foi digitado pelo escrivão, se a senhora aprovar que irá denunciar mesmo, um mandato será feito e seu marido será preso.
-Meu filho e eu não merecemos voltar para aquela casa e passar diariamente por essa situação. Tudo que foi dito foi sim uma denúncia, e o que eu mais quero desse homem é distância. -disse Helena secando as lágrimas do rosto.
Horas depois, lá estava novamente a polícia no apartamento do casal, mas dessa vez José saía algemado. Antes de cruzar a porta para sair, o homem parou e olhou bem nos olhos de Helena dizendo:
- Um dia eu irei sair de lá de dentro. - em um tom seco e irritado.
Os policiais enfim o levaram. José ficaria no mínimo seis anos na prisão, e durante esse tempo o processo do divórcio estaria acontecendo, Helena só precisava de um advogado para ajudá-la no que fosse necessário. Mas no momento a moça estava sem cabeça para isso, ela apenas sentou-se no sofá e começou a chorar. Agora Helena estava sem saber o que fazer, ela havia permanecido no apartamento, porém, tinha um filho para cuidar, um emprego para arrumar, contas para pagar. Sua vida nunca esteve tão bagunçada, e a cidade de São Paulo nunca pareceu tão grande quanto agora diante de seus problemas.
Mal sarava um ferimento, e outro já se abria em algum lugar de seu corpo. Os tons roxos e até mesmo verdes em sua pele deixavam claro o abuso que Helena sofria há dez anos. O amor que existia no início do casamento já não existia mais. O único motivo pelo qual ela ainda insistia naquele casamento, era o medo de não conseguir criar seu filho sozinha, mesmo sabendo que a solução de seus problemas era a separação. Separação não somente de um homem ou de um matrimônio, mas sim de uma vida de sofrimentos, tapas e ofensas, noites em claro e lágrimas frias.
Ao fundo da cena, um choro ainda mais alto persistia. Era o choro de Pedro, o filho do casal. A criança também estava assustada, carregava junto de si uma bagagem cheia de discussões dos pais, choros da mão e tapas do pai. Ao perceber o choro do menino, Helena se levantou do chão e foii acalmá-lo, segurando-o no colo. Sempre que estava no colo da mãe, o garoto gostava de puxar os cachos de seu cabelo, que estavam sempre presos em um lenço. Pouco tempo depois, Pedro já estava dormindo e foi colocado em sua cama como se estivesse tudo bem.
A moça então decidiu lavar o rosto, secar as lágrimas e tratar dos ferimentos, pois precisava arrumar a bagunça que seu marido havia feito na casa. Cerca de uma hora depois, a moça acabou dormindo no sofá.
Batidas fortes na porta e um raio de luz que atravessava a cortina acordaram Helena logo pela manhã. “Não pode ser visita, o porteiro nem interfonou”, pensou a moça. Ao abrir a porta, um policial segurando uma prancheta disse:
- Bom dia, é aqui a residência do Senhor José Ferreira?
- Sim, o que o senhor gostaria? – respondeu Helena.
- Recebemos uma denúncia anônima, o denunciante escutou gritos, barulho de coisas quebrando e choros vindo desse apartamento –contou o policial tentando olhar por cima do ombro de Helena – Será que posso verificar o lugar?
- Ah claro - assentiu a mulher com um nervosismo repentino.
O homem andou pelos cômodos da casa vasculhando tudo, verificando a bagunça que ainda continuava ali e depois foi para perto de Helena.
- A senhora tem muito para contar, pegue o garoto e me acompanhe, por favor – disse o policial enquanto caminhava em direção a porta da saída.
Pedro mal podia esperar para acompanhar o policial, enquanto Helena mal podia acreditar no que estava prestes a acontecer. As perguntas que, cuidadosamente, teria que responder com detalhes e as pequenas mentiras que teria de inventar para esconder os fatos mais absurdos que aconteciam em sua casa e, além de tudo, contra seu próprio corpo. O frio na barriga a acompanhando a cada segundo, as mãos tremiam mesmo que passando despercebida, e seu coração parecia pular a cada quilometro.
Assim que cruzou as portas do local, a mulher se deu conta do que iria fazer. Todos os dez anos de casados desmoronando em questão de minutos. Toda a dor vindo à tona, todo o disfarce se desfazendo aos poucos tal como seu casamento.
Sentou-se de frente para o delegado, o filho no colo observando tudo ao seu redor. Para uma criança de cinco anos, estar em uma delegacia parecia cena dos filmes de ação que passam na televisão, mas tudo aquilo pelo qual estavam passando era a realidade. As perguntas vieram, e a cada resposta o coração de Helena palpitava ainda mais.
- Há quanto tempos vocês são casados? –questionou o delegado.
- Há dez anos.
- E na época se casaram por amor ou porque a senhora foi obrigada?
- Eu realmente amava meu marido, no início ele dizia que me amava também. Eu tinha apenas 17 anos e acreditava sempre que ele dizia que gostava dos cachos e do volume do meu cabelo, do tom negro da minha pele e da suavidade que existia quando eu falava. –disse Helena com lágrimas nos olhos.
- E os hematomas em seu rosto? A senhora poderia me explicar?
- Eles estão por todas as partes, pouco tempo depois que me casei, meu marido começou a beber todos os dias. Ele sai do trabalho e vai para o bar, volta pra casa quando já está tarde, e é quando ele me bate. Muitas vezes ele me bateu por motivos bobos, às vezes nem tinha motivo. -explicou Helena, que chorava sem parar.
- E a senhora nunca pensou em divórcio e nem nada do tipo? -perguntou o delegado.
- Nunca pude, ele nunca me deixou trabalhar fora. Se eu saísse de casa, ficaria sem nada e ainda estaria com meu filho para cuidar, sem ter para onde ir ficaríamos na rua. E também que o José me ameaçou várias vezes, dizendo que se eu fosse embora de casa ele iria me matar. -relatou a pobre moça.
- Olha, diante disso tudo a senhora tem duas opções: denunciar seu marido ou continuar sofrendo nas mãos dele. Acredito que a primeira opção seja a mais adequada. -concluiu o delegado.
-O que eu preciso fazer para denunciar?
-Tudo o que a senhora contou foi digitado pelo escrivão, se a senhora aprovar que irá denunciar mesmo, um mandato será feito e seu marido será preso.
-Meu filho e eu não merecemos voltar para aquela casa e passar diariamente por essa situação. Tudo que foi dito foi sim uma denúncia, e o que eu mais quero desse homem é distância. -disse Helena secando as lágrimas do rosto.
Horas depois, lá estava novamente a polícia no apartamento do casal, mas dessa vez José saía algemado. Antes de cruzar a porta para sair, o homem parou e olhou bem nos olhos de Helena dizendo:
- Um dia eu irei sair de lá de dentro. - em um tom seco e irritado.
Os policiais enfim o levaram. José ficaria no mínimo seis anos na prisão, e durante esse tempo o processo do divórcio estaria acontecendo, Helena só precisava de um advogado para ajudá-la no que fosse necessário. Mas no momento a moça estava sem cabeça para isso, ela apenas sentou-se no sofá e começou a chorar. Agora Helena estava sem saber o que fazer, ela havia permanecido no apartamento, porém, tinha um filho para cuidar, um emprego para arrumar, contas para pagar. Sua vida nunca esteve tão bagunçada, e a cidade de São Paulo nunca pareceu tão grande quanto agora diante de seus problemas.
3 Comments:
Muito bom! Adorei
Essa história está muito intrigante. O que será acontecerá com Helena? Sem marido, sem dinheiro, sem emprego... Coitada!
Adorei!
Postar um comentário